Há vários crivos pelos quais passamos a decisão de ir a uma Corrida de Touros. Por opção geográfica, porque acontece na nossa região; por estar no cartel um Cavaleiro da nossa eleição, por pegar um Grupo de Forcados da nossa preferência; por serem lidados Touros de uma Ganadaria que nos garante boa matéria-prima; por admiração da versatilidade de um Bandarilheiro… e por tantas outras razões, todas válidas. Todos estes intervenientes pisam a arena e motivam aplausos em função da nossa empatia e do seu desempenho. No entanto há muitos outros participantes que fazem a Festa acontecer e passam completamente despercebidos. Um desses casos são os Emboladores. Na prática ninguém dá por eles mas a sua existência passa o patamar do relevante porque, na prática, são vitais.
A arte de embolar toiros em Portugal, remonta ao século XVI. A embolação feita na época era muito diferente da de hoje em dia; a bola (como se designava na época a embola) era apenas metálica e colocada na ponta do corno, só mais tarde é que esta começou a ser forrada a couro, cobrindo o corno na sua totalidade..
A forma e o material de que eram feitas as bolas evoluíram ao longo dos anos e deram origem às actuais embolas.
As embolas são compostas por um copo metálico na sua frente, que cobre o corno desde a ponta até cerca de 10cm para trás, são forradas a couro, que irá cobrir não só os 10 cm de área já coberta pelo copo, mas também o restante corno até então a descoberto. As embolas terminam com duas argolas metálicas, que têm como função segurar o cordel que as une na córnea do toiro.
A esta função o Embolador soma ainda a arte do minucioso fabrico de bandarilhas.
Estamos assim perante pessoas cujas funções fazem parte de TODAS as Corridas de Touros mas que raramente são aplaudidas. É verdade que os aplausos não pagam contas mas não será menos verdade que o reconhecimento motiva e faz aprimorar o brio.
Façamos o exercício de pensar que estas pessoas estão na Praça muito antes de nós, arriscam a embolar Touros, muitas vezes ainda nos carros de transporte, colocam na Praça os ferros que, com arte, previamente fabricaram e, no final, ainda lhes acontece algumas vezes serem vítimas de algum Empresário sem palavra que lhes paga menos que o acordado…
Costumo dizer que quando compro o bilhete é para ver tudo, e costumo levar esta máxima à letra. De facto olho os Touros com o reconhecimento pelo trabalho dos Emboladores sabendo que sem aquele trabalho prévio de colocação da embola o Touro não estaria na arena, assim como olho para cada bandarilha, que passa das trincheiras para as mãos do Artista que a vai usar, como uma peça de arte onde está condensada tanta informação e forma de comunicar que pode ir de uma efeméride a um patrocínio, do gosto pessoal de um Cavaleiro a uma superstição.
Os Emboladores são uma peça tão importantes na engrenagem que a sua ausência seria motivo para o espetáculo não acontecer, por isso alimento a esperança que com frequência os façam pisar uma arena e os possamos aplaudir, de pé!
A temporada está agora a dar os primeiros passos, estamos todos com aquele frenesim inerente a um acontecimento que nos agrada. É momento de alimentar expectativas e de fazer votos de sorte para todos. Sejamos então justos e coloquemos na equação todos os que fazem acontecer a Festa Brava.
Fernanda Maria Mouzinho






