Na minha infância ir aos ninhos ainda era uma modalidade muito praticada por grupos de miúdos cujo entorno assim o permitia. Confesso que nunca pertenci a nenhum desses grupos, mas, por viver no campo e teimar em participar em todas as actividades e tarefas, frequentemente descobria ninhos. Se os descobria na primavera, quando estavam habitados, contemplava-os sem lhes tocar. Mas quando, em qualquer outra altura do ano, encontrava um ninho vazio tinha um momento de pura admiração e fascínio por aquela obra de construção com engenho, minúcia e perícia que transformava um conjunto de pequenos paus e outra vegetação num habitat de conforto e aconchego, onde um casal de pássaros cuidadosamente depositou os seus ovos e, com enorme dedicação e trabalho constante, viu nascer e fez crescer os seus filhos.
Este fim-de-semana redescobri um ninho. Um ninho cuja localização e características já conheço há vários anos mas que cada vez que vejo me aumenta o fascínio e admiração.
Este sábado voltei ao projeto Ramagens Ouro e Prata, um ninho onde cresce a aficion.
O casal Ana Meira e Marco Gomes são os artífices que, com a minúcia e o trabalho de quem constrói e cuida de um ninho, fazem, de uma casa comum de uma rua de Alter, um espaço fascinante onde se respira cultura e se aprende história, onde todos os intervenientes da Festa Brava estão representados e a todas é dado relevância. Percorrer o número 43 da Rua de Santarém é um passeio pelo conhecimento e uma ode à Tauromaquia.
Mas, como se este cuidado e zelo por um espólio único não fosse suficiente, ainda dão ao ninho que construíram com esmero e uma dimensão mais detalhista e ao mesmo tempo abrangente quando, anualmente, organizam uma Gala onde homenageiam quem de alguma forma está na Festa Brava com aporte e notoriedade. Mas não fazem com o crivo comum, não escolhem os nomes óbvios ou que a ribalta tem em destaque quase natural. Ano após ano sobem ao palco desta Gala pessoas que se destacam no mundo dos touros nas mais variadas vertentes, desde os beneméritos da Festa às Figuras do toureio, das Tertúlias aos profissionais de saúde que dedicaram tempo às Praças.
Sou de opinião que as homenagens se devem fazer em vida, quando quem as recebe pode usufruir do momento e fazer desse elogio público um alimento para o incentivo e um reforço da valorização pessoal. O reconhecimento do valor de outrem é uma forma de construir no outro, mas também em nós, um reforço existencial e um suplemento para aquela dose saudável de vaidade que todos devemos ter quando fazemos bem e o bem.
A XVI Gala da Tauromaquia, que aconteceu este sábado 15 de março, foi, mais um ano, palco de destaque para quem dá o seu contributo neste sector cultural que, aos dias de hoje, se vê espartilhado por uma sociedade amorfa de identidade cultural e crítica numa realidade que está na moda ser contra.
A Ana e o Marco, contra tudo e contra todos, vão levando a bom porto este projeto de preservação e divulgação do valoroso património tauromáquico, e colocam nesta Gala anual um empenho notável e, de forma altruísta, abrem ao público a possibilidade de uma tarde memorável de música, dança e reconhecimento de percursos que, em muitos casos, passam pelos pingos da chuva discretamente, mas aqui são enaltecidos e lhes é manifestada a gratidão pelo que aportam e valorizada a conduta.
Das Figuras inquestionáveis aos mais discretos intervenientes, o leque de homenageados é um manifesto público da importância que todos têm na elevação e incremento da Festa Brava.
Todos devemos estar gratos pelo trabalho que este casal põe ao serviço da Tauromaquia. A forma abnegada como construíram este ninho, a dedicação com que o cuidam, o empenho com que o valorizaram, a generosidade com que o mostram e o privilégio que dão a quem o contempla são dignos dos melhores elogios e merecem o reconhecimento de todos.
Este fim-de-semana, redescobri um ninho onde a Festa Brava vive no aconchego de quem a cuida como quem cuida de um filho….
Fernanda Maria Mouzinho






