Sempre que um Moço de Forcado cita um Touro eu paro de respirar. Não há nada no mundo igual a esta façanha lusa. Nem idêntica sequer!
A liderar uma fila de oito Moços, alinhada de forma a criar no oponente a ilusão de estar perante um apenas, um Forcado de cara desafia um animal bravo com, aproximadamente, oito vezes mais força que ele.
Num intervalo de tempo cronologicamente pequeno mas emocionalmente colossal, um ser humano supera a sua própria dimensão e agiganta-se para lá do inarrável.
Motivado pela força anímica da valorização da sua jaqueta e confiando no posterior amparo dos restantes sete que o acompanham, chama a si, de forma directa, a bravura de um Touro.
Nuns minutos de puro arrojo, um intrépido ser humano ganha um revestimento heróico.
Num monólogo de entrega, ouvimos a sua voz de desafio, incitando a que o oponente a si se dirija. Num vociferar de valentia, só ao alcance de alguns, vestem de som o foco que querem em si.
Num pequeno intervalo de tempo em que o resto do mundo pára, um Moço de Forcado respira valor e avança na arte de pegar Touros.
Numa façanha só ao alcance de alguns, com o tronco protegido apenas por meia dúzia de metros de pano minuciosamente enrolados à cintura, com a pureza de uma camisa branca, a elegância de uma gravata e a galhardia de uma jaqueta de ramagens, estes audazes enfrentam a bravura de um Touro, caminham ao seu encontro até aquela fronteira ténue que separa os terrenos de cada um, recua-lhe na frente da investida até ao ponto exacto de uma reunião dos dois corpos onde a força do animal é dominada pelo saber do Forcado.
Quando um Moço de Forcado cita um Touro o mundo fica em suspenso, a respiração fica adiada e o coração sai do peito.
A intensidade condensada nestes minutos não cabe em palavras, porque nem todas as palavras do mundo seriam suficientes para os descrever.
Pelo privilégio que me dão de presenciar estes momentos de singular intensidade e emoção sem par, deixo, a todos os Moços de Forcado, uma única palavra, gratidão.
Fernanda Maria Mouzinho






