Vitorino Nemésio dizia que “Viver numa ilha é aprender a medir o mundo por dentro”,
que sentimento tão arraigado e tão profundo quê se nota todos os dias nos insulares,
mas quando nos juntamos todos é por demais evidente. 1 de maio no Cabouco na
freguesia das Fontinhas, uma horda de gente juntou-se para celebrar o que todos os
anos se repete e que é a sua verdadeira alma e é o seu mundo. Essa multitude viveu,
sorriu, falou e sentiu abrindo portas à época mais bonita das vividas na Ilha Terceira.
Nesta data abre-se a porta aos festejos em Louvor do Divino Espírito Santo, às festas
profanas e religiosas populares que encerram sempre com uma pujante tourada à
corda.
Abre-se a porta à felicidade do reencontro, à perícia da produtividade no trabalho para
se estar nos arraiais às 18h30, à vontade férrea de seguir este ou aquele toiro, esta ou
aquela ganadaria… é assim de forma, simples natural e profundamente terceirense.
A ganadaria de Humberto Filipe abriu a 1 de maio num arraial pejado de gente, uma
cartada forte, só alcance das casas de bravo com toiros de comportamento regular na
tourada à corda, querida por uma Ilha inteira e verdadeiramente capaz de levar atrás
de si uma verdadeira enchente ávida das emoções da tourada à corda. Mesmo sem os
capinhas de renome mais virados para outro tipo de investida mais cómoda em outros
arraiais, a casa de bravo das Cinco Ribeiras ofereceu uma grande tarde de toiros e
pondo o patamar bem alto logo no dealbar desta novata temporada.
Os toiros 393, Ratinho, 383 e 412, mostraram as investidas do verdadeiro toiro apto
para a tourada à corda, daqueles que ainda garantem aos aficionados uma ponta de
emoção, rebuliço, sem pensarem que estão numa tourada à corda. Verdade seja dita
os jovens capinhas, deram conta do recado e bem, aguentando e rodando com as
investidas exigentes e sabidas dos toiros obra do grande criador das Cinco Ribeiras. O
destaque vai para as investidas sérias, exigentes e impetuosas, de virar num pé só
capaz de pôr em sentido dos valentes jovens que se puseram pela frente. Duro e
matreiro foi o primeiro toiro marcado com o número 393, tragicamente famigerado mas
que continua a ser um animal interessante de seguir, pelas suas investidas carregadas
de sentido e intensidade, não virando a cara à luta em nenhuma das solicitações
feitas. O segundo toiro apodado de Ratinho é um animal de menos mobilidade, mais
fixado e de investida mais certeira, menos espetacular no seu desempenho, mas
igualmente a transmitir uma sensação de perigo iminente em todos os sítios onde
para. A sua investida sempre a meia altura e a saída a passo tornam quase
impossíveis citar-se o toiro de forma confortável.
O terceiro toiro com o número 383 curto já nas suas deambulações nos capinhas, é no
entanto um toiro com forte instinto para investir a paredes, tapumes e varandas e fê-lo
com intensidade criando um clima de rebuliço total.
Impecável é ver o esmero da comissão e das gentes das Fontinhas que ano após ano
se esmeram para ter uma tarde no início de maio onde o entusiasmo seja
generalizado e verdadeiramente aglutinador das vontades dos vários aficionados.
Está aberta a porta para a “altura mais bonita do ano terceirense” como muitos dizem,
que não haja lesões, nem colhidas intensas, mas que os toiros invistam e se gere
emoção como hoje ocorreu.
Texto e fotografia por: José Paulo Lima






