Somos o país da Europa com mais horas de luz mas teimamos em gostar de viver nas trevas…
O jeitinho que temos para dar pontapés em quem já está caído no chão, andar sempre de faca afiada ou viver com o dedo apontado é uma coisa transcendente!!
O mundo da Festa Brava não é excepção. Também por aqui, no mundo dos touros se gastam muitas energias a acrescentar pontos aos contos das desgraças…
Qualquer acontecimento digno de registo é relatado meia dúzia de vezes. Todos os registos maus são vistos como um acontecimento digno de mil referências.
“Empezamos a morir el día que dejamos de defender lo que queremos”.
Desconheço o autor desta frase mas é de facto uma afirmação que nos devia levar a pensar um bocadinho….
Às vezes defender o que gostamos cansa. Às vezes no meio de tanta urgência da vida acabamos a negligenciar a parte de nós que se considera secundária, não prioritária, para ocupar tempos livres ou até supérflua. E neste dia após dia, no vencer de batalhas pessoais, no sobreviver ao que nos é imposto, no emaranhado de uma sociedade meio estranha… acabamos por ir deixando para amanhã a defesa, o empenho, a dedicação ao que gostamos hoje e que se não o cuidarmos talvez não esteja amanhã….
Os que me são mais próximos sabem que sou aficionada aos Touros desde sempre e que há uns anos ganhei uma dívida de gratidão para com a Festa Brava, por isso não me posso deixar vencer pelo cansaço e tenho a obrigação de continuar a defender o que gosto, a Tauromaquia.
Não está fácil. Para uma simples aficionada como eu que apenas quer comprar o seu bilhete e ir a uma Corrida com Touros de facto bravos, Cavaleiros que façam justiça à sua arte e Forcados que saibam honrar a sua jaqueta… não está fácil.
Não está fácil porque para começar o sector passou em poucas décadas a ser o filho bastardo da cultura deste país onde a ditadura do gosto manda e desmanda na identidade de cada um. Num passado recente nasceu um movimento de gente, perfeitamente ignorante no que ao mundo rural diz respeito, mas que se acreditam ungidos de óleos de sabedoria superior e fazem da sua vida uma borracha que pretende apagar toda a identidade de um povo e reescrever a nossa história, tradições e cultura.
Não está fácil porque o sector que devia discutir das portas para dentro, encontrar consensos e trazer resultados das portas para fora…. resolveu criar uma espécie de novelas de enredos, negócios e esquemas ( que tenho cá para mim que sempre houve mas que se resolveriam com apertos de mão, palavras dadas e acordos de cavalheiros) e trazer tudo para a praça pública.
Uma simples aficionada como eu não tenho o mínimo interesse nos esquemas de Empresários com Apoderados, nos negócios dos Ganaderos com os Cavaleiros ou das brigas internas dos Cabos. A maioria dos aficionados queremos comprar um bilhete por um preço justo para um cartel que tenha conteúdos que nos agradem numa Praça que nos cative. O resto… arrufem-se à porta fechada, negoceiem como senhores, mostrem os resultados, não nos façam perder a magia da Festa Brava e não nos tirem a vontade de defender esta causa…..
Começamos a morrer no dia em que deixamos de defender o que gostamos. Quero continuar a defender este mundo onde a arte e o valor são eixos centrais e a maioria do que gravita à sua volta são características meritórias de uma sociedade que sabe estar e se sabe respeitar entre si e a todos os outros.
Defendo o que gosto. Que não chegue o dia em que comece a morrer por não o defender.
Perante a beleza um touro de quinhentos quilos de trapio e bravura recuso-me a dar protagonismo apenas a um pedacinho de trapo rasgado que alguma circunstâncias estranha deixou no lugar errado….
Fernanda Maria Mouzinho






