Somos um país pequeno mas com uma riqueza cultural tão vasta que só por algum sentimento de inferioridade mal resolvido se poderá justificar esta constante necessidade de ir fazer cópias baratas de tradição alheia e um frequente desprezo por uma riqueza cultural como a nossa.
Mais de 800 anos de um povo que pode conjugar verbos na primeira pessoa e chamar de seu um retângulo de terra verdadeiramente único, são, desde um passado recente, deitados ao abandono ou guardados num sótão onde dificilmente voltam a ver a luz do dia.
Em nome de uma absurda globalização e de uma questionável modernidade, estamos prestes a ser uma nação culturalmente órfã. Este constante querer cortar com o passado, este estar envergonhado do que é nosso, este menosprezar das nossas raízes, este repúdio da nossa herança cultural… estão a passar uma borracha por tudo o que, em vivências anteriores às nossas, foi uma realidade e nos tornou no que somos.
Copiamos gastronomia, copiamos música, copiamos modelos familiares, copiamos celebrações e voltamos a copiar tudo e mais alguma coisa quando na verdade a nossa necessidade de copiar não tem qualquer fundamento uma vez que de tudo isso temos originais de muito valor.
Com toda esta aparente naturalidade se vão substituindo os valores e as tradições, a identidade e a cultura, a nacionalidade e o patriotismo, a individualidade e o idioma e todos as características e traços de um povo.
Estamos a educar as nossas crianças com ensinamentos vindos de fora, e, praticamente sempre, anulando a transmissão de conhecimento do que é nosso.
Um desses exemplos, da insensatez na desvalorização da nossa identidade é a figura do Campino, que, por absurdo que pareça, não consta do Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial português.
Os Campinos são uma profissão cuja existência se perde no tempo. Tratam o campo por tu e conhecem o seu maneio ao detalhe. Sabem tudo sobre os touros que cuidam desde que nascem. Reconhecem, domam, treinam e trabalham os cavalos por gosto e por terem neles o parceiro de trabalho essencial. Conhecem o que a terra produz e sabem ler o céu que tantas vezes lhe serve de tecto. Executam de forma singular tarefas que só a eles estão atribuídas. Montam a cavalo com destreza e a cavalo dominam a execução de um trabalho de risco. Têm orgulho no que fazem e isso nota-se em cada gesto e na forma como transmitem o seu legado de conhecimento empírico de geração em geração. Num passado não muito distante, mas que nos parece já quase irreal, quando não havia pontes nem veículos para transportar estes animais, eram estes donos do saber do maneio de gado bravo que guiavam, a pé e conhecendo o Tejo como ninguém, os touros do Ribatejo para a várias Praças de Lisboa ( sim, eram várias).
Os Campinos são há séculos fonte de inspiração e estão eternizados nas mais diversas formas de arte. Apesar de toda a sua importância, de fazerem parte do nosso território há muitíssimo tempo e de serem uma figura irónica do nosso país, descobri há pouco que não fazem parte do Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. Esta inscrição constitui-se como medida fundamental para a salvaguarda do Património Cultural Imaterial em Portugal e representa condição indispensável para sua eventual candidatura à Lista Representativa do Património Cultural Imaterial …
Neste fim de dia em que já se anuncia um período de descanso, deixo o desafio a quem de direito para que se olhe para esta profissão de gente, que pouco descansa, e não se descanse até o Campino estar inscrito como aquilo que de fato é, Património Cultural Imaterial do nosso Portugal.
Por Fernanda Maria Mouzinho







Estou totalmente de acordo com o assertivo e oportuno texto!
Parabéns pela coragem, pelo conhecimento e valor que atribui a essa figura Ímpar que é o Portuguesíssimo Campino
Parabéns por defender com orgulho as nossas tradições e a nossa cultura…
Que Deus lhe dê muitos anos de vida para continuar a punir pela TAUROMAQUIA como tradição, arte e cultura portuguesa .
Muito obrigado e que apareçam mais personagens a lutar pelos nossos princípios e tradições.