Há coisas que estão tão enraizadas que para as arrancar é preciso mais do que esforço, são precisos os 12 trabalhos de Hércules!
Isto já foi um império, mas actualmente com um carro escapatório e uns voos bem coordenados percorremos o território num dia. Isto é tão pequeno que a ideia de interior e população rural faz tanto sentido como achar que o Portugal dos Pequenitos precisa de ter um táxi para ir da igreja à escola!! Mas mesmo assim, mesmo com estas dimensões em que praticamente nos avistamos todos uns aos outros, ainda persistem olhos que nos avistam mas não nos conseguem ver. De facto, olhar é uma coisa, ver é outra. E neste pequeno paraíso chamado Portugal, os ditos provincianos ainda carregamos com um rótulo de incultos, impreparados, meio labregos e totalmente insensíveis. Viver fora das maiores cidades ainda é para os urbanos sinónimo de comer sem talheres, não ler um jornal, ou conhecer apenas a Matriz da sua freguesia. Mas para quem acha que os rurais, que não neo, olhamos para as pirâmides do Egipto e só vemos um amontoado de pedras, tenho a dizer que estão tão enganados que o que choca não é o vosso olhar oco para nós, mas sim a vossa total ignorância e incapacidade de nos verem.
Olhar, olham… mas ver não alcançam! E não alcançam porque vivem com uns entrolhos que uns autodenominados gurus da modernidade vos colocaram. Olhar, olham… mas como se colocam num pedestal de superioridade perdem a possibilidade de ver ao nível da terra onde de facto vivemos. Olhar, olham… mas como foram ouvindo relatos de um passado marcado por vivências da ruralidade em condições difíceis, são incapazes de ver que as voltas que a Terra dá ao Sol acontecem em todo o território e por isso aqui também já evoluímos. Olhar, olham… mas como vítimas da própria ignorância perderam as ligações às raízes e ao passado, acham que o futuro é a globalização e ser cidadãos do mundo, mesmo que do mundo não saibam nada e já nem saibam quem são.
E depois acontecem fotografias que captam momentos e muitas vezes nos fazem viajar até à imagem eternizada, mas que também são o contraditório de tudo o que nos rotulam. Olhando para esta imagem pensei que realmente falta de sensibilidade é coisa que não nos assiste. Este é um bom exemplo do expoente a que se eleva o conceito de beleza num sector acusado de grotesco. Aqui está patente o valor das mãos de um anónimo que embeleza uma crina criando arte. Neste registo que perpetua a imagem de uma actividade que se repete vezes sem conta se atesta o nível de sensibilidade dos seus intervenientes.
Temos sensibilidade com bom senso. Somos sensíveis à beleza de um bezerro acabado de nascer e valorizamos a astúcia que o move no instinto de sobrevivência nos primeiros minutos de vida. Mas temos consciência do seu papel comercial e económico e função na cadeia alimentar. Fazemos um lume no meio do nada para aquecer um borrego que nasceu mais debilitado, mas quando cria as forças básicas volta a fazer parte do rebanho. Ficamos hipnotizados com o ondular de uma seara, mas sabemos que só ceifada e debulhada cumpre o seu propósito. Valorizamos as tradições que já cá estavam quando chegámos, mas não abdicamos de aprender o novo e enaltecer a inovação. Temos práticas ancestrais mas sabemos fazer uso das novas tecnologias. Aprendemos de outras culturas sem renegar a nossa. Os exemplos são incontáveis, porque também não será possível contar os momentos em que a nossa sensibilidade é protagonista durante as nossas vivências de campo.
Está enraizada uma conotação depreciativa sobre a nossa identidade rural. Tenho enraizada uma teimosia em demonstrar que nos olham de forma errada.
Fernanda Maria Mouzinho






