“Nos alvores da Primavera, onde o Inverno nos teima em deixar e o frio começa
a ser visto já como um intruso, a vida ganha outra dimensão o povo necessita
de se encontrar e de festa, removendo o caruncho dum tempo prolongado de
espera e de recolhimento. As pastagens começam a levedar um intenso verde
vivo, aqui e ali salpicado pelas flores brancas do saramago daninho ou do
amarelo da erva azeda… tudo começa a ser bonito quase como que uma
explosão de vida que se repete ano após ano.
Aproxima-se o dia 1 de maio e com isso o corrupio intenso e normal de um
verão onde o toiro é o tema central da vida terceirense! Não por ser querido e
exaltado por todos, mas porque se faz presente em todos os sítios, pela
vontade de uma grande maioria sobre os demais. Tradicional o primeiro de
maio é na Fonte da Ribeirinha, local carregado de história, pegado às portas da
cidade de Angra do Heroísmo, onde a tradição de ir aos toiros se mantêm ano
após ano, com mais ou menos pujança.
De Santo Amaro à Serra e da Rua da Igreja à Ladeira Grande, a freguesia
constitui-se como um dos grandes centros comunitários da Ilha Terceira!
Respira tradição, exibe etnografia, numa torpe progressista que mantêm
arraigados os seus grandes usos e costumes como os fazia há anos.
A Ribeirinha tem ganaderos, por isso tem pastores e capinhas, aparecendo
também forcados, bandarilheiros e cavaleiro que dão cor e sentido
tauromáquico a uma história com vários séculos. As nossas bandas repicam-se
em passodobles refinados e o povo vai vivendo numa euforia pouco
exuberante, que se estende do Boavista Clube da Ribeirinha, das Sociedades,
para os Impérios ao Divino e para os arraiais em dia de toiros.
A freguesia da Ribeirinha, situada na costa sudeste da Ilha Terceira, no
concelho de Angra do Heroísmo, é um dos bastiões da cultura tauromáquica
açoriana. Desde os primórdios da povoação da ilha que a relação entre o
homem e o toiro tem vindo a moldar, de forma singular, o tecido identitário da
comunidade ribeirinhense. A história tauromáquica da Ribeirinha não é apenas
uma sucessão de eventos festivos ou um legado de bravura popular — é um
testemunho vivo da resiliência, do engenho e da devoção de um povo às suas
tradições mais enraizadas.
A tourada à corda, a mais emblemática forma de expressão taurina da ilha
Terceira, tem aqui raízes profundas. Embora os primeiros registos escritos desta prática datem do século XVII, a oralidade popular e os testemunhos
transmitidos de geração em geração sugerem que, na Ribeirinha, os primeiros
festejos com toiros soltos pelas ruas já ocorriam em datas muito anteriores,
ligados à celebração do Espírito Santo e às festas de São Pedro, padroeiro da
freguesia. A tourada fazia parte de um ciclo ritual mais amplo, onde o sagrado
e o profano se cruzavam, marcando o calendário agrícola e religioso da
comunidade.
Na Ribeirinha, o toiro sempre foi mais do que um animal — foi símbolo de
força, resistência e identidade. A própria topografia da freguesia, com as suas
ruas estreitas, ladeadas por muros de pedra e casas tradicionais, cria um
cenário ideal para o desenrolar da tourada à corda, conferindo-lhe um carácter
dramático e vibrante. Os lances de bravura, os corredores destemidos, os
capinhas com perícia e experiência, e o público que se acotovela nas esquinas
ou espreita das janelas, formam um quadro profundamente enraizado na alma
popular.
Durante o século XIX e boa parte do século XX, a tourada à corda consolidou-
se como um dos momentos altos do ano ribeirinhense. Era o tempo em que os
emigrantes regressavam dos Estados Unidos e do Canadá para "matar
saudades da terra", e nenhum reencontro estaria completo sem assistir a uma
tourada na Ribeirinha. As ganadarias terceirenses tornaram-se célebres pelos
toiros de grande porte e temperamento imprevisível, e os nomes dos toiros
mais famosos, assim como dos homens que os enfrentaram com audácia,
passaram a fazer parte da memória coletiva local.
A tourada à corda na Ribeirinha não é improvisada — é cuidadosamente
planeada. As comissões de festas, compostas por moradores voluntários,
asseguram a contratação das ganadarias, a montagem das tapadas, a
segurança dos recintos e o apoio logístico necessário. As ruas enchem-se de
vida, de cor, de música e de aromas de comida tradicional. Ao som das
bandas, o ambiente transforma-se num palco de emoções fortes. E, quando se
abre a porta da gaiola e o toiro sai à rua, o tempo parece suspender-se: é o
instante em que a tradição se atualiza, em que o passado e o presente se
tocam.
Importa ainda destacar o papel da juventude na continuidade da tradição. Na
Ribeirinha, os jovens não se limitam a ser espectadores: participam ativamente
na montagem das infraestruturas, no apoio às comissões de festas, e alguns
deles aventuram-se, ano após ano, a desafiar os touros nas ruas. Esta
transmissão geracional é essencial para a sobrevivência da tauromaquia
ribeirinhense, pois garante que a prática não se cristaliza num passado
nostálgico, mas permanece viva, dinâmica e significativa.
Num tempo em que a tauromaquia é frequentemente alvo de críticas e debates
acesos, a comunidade da Ribeirinha afirma, com convicção, a legitimidade
cultural e o valor histórico da sua tradição. Para os ribeirinhenses, a tourada à
corda não é violência gratuita — é ritual, é uma forma de expressão identitária
construída ao longo de séculos. O toiro, é tratado com respeito, tanto pelos criadores como pelos participantes. O espectáculo vive da imprevisibilidade, da
coragem, da destreza e, acima de tudo, de uma ética de respeito mútuo.
Hoje, a história tauromáquica da Ribeirinha continua a escrever-se em cada
tourada realizada, em cada história contada ao serão, em cada criança que
aprende montar uma tapada ou a ouvir os foguetes que anunciam a chegada
dos toiros à freguesia É uma história de continuidade e de resistência, de
adaptação e de fidelidade às raízes. Preservar esta história não é apenas
proteger um costume antigo — é honrar uma herança viva, que dá sentido,
identidade e orgulho a uma freguesia inteira.
Embora a Ribeirinha, seja reconhecida sobretudo pela vibrante e apaixonada
vivência da tourada à corda, importa sublinhar que esta localidade tem também
um legado digno de nota no âmbito da tauromaquia erudita. Com toda a sua
componente artística, formal e cerimonial, encontrou na Ribeirinha não apenas
público entusiasta, mas também protagonistas locais que, com elegância e
valentia, elevaram o nome da freguesia nas arenas dos Açores e, em alguns
casos, além-mar.
A tauromaquia erudita diferencia-se da popular não apenas pelos seus códigos
próprios — a lide a cavalo ou a pé, a pega de forcados e a atuação dos
bandarilheiros — mas também por um certo grau de preparação técnica,
estética e simbólica que exige formação, disciplina e um apurado sentido da
tradição. Na Ribeirinha, esta vertente mais refinada da tauromaquia sempre foi
respeitada e incentivada, e a freguesia orgulha-se de ter sido berço e palco de
talentos distintos neste domínio.
Entre os nomes que mais se destacaram estão o cavaleiro profissional e
Bandarilheiro, oriundos de famílias com fortes ligações à lavoura e à criação
de gado — uma simbiose natural num território onde o campo e o toiro sempre
caminharam lado a lado.
Além destes, há a destacar o contributo dos forcados ribeirinhenses, alguns
dos quais integraram, ao longo das últimas décadas, os conhecidos grupos de
forcados terceirenses. A coragem e destreza exigidas nesta arte, que envolve o
enfrentamento direto com o toiro, foram amplamente demonstradas por jovens
da freguesia, que com honra e espírito de grupo participaram em incontáveis
corridas de touros em praça. A Ribeirinha tem sido, aliás, um viveiro de
forcados, com novas gerações a dar continuidade a uma escola de bravura
herdada dos tempos em que os homens aprendiam a lidar com o gado bravo
desde tenra idade.
O equilíbrio entre estas duas formas de viver a tauromaquia — a popular e a
erudita — é talvez o maior trunfo da Ribeirinha. Enquanto muitas localidades se
especializam apenas numa vertente, aqui convivem harmoniosamente o
improviso da corda e a coreografia da praça, a adrenalina do desafio
espontâneo e a arte do movimento estudado. E em ambas, o ribeirinhense
entrega-se por inteiro, com o coração cheio de orgulho e respeito por uma
tradição que é, antes de tudo, a expressão mais autêntica da sua identidade.”
Texto: José Paulo Lima
Fotografias: Edgar Vieira







