Saudade, sentimento que pairava no ar.
Era muita a vontade de voltar a sentir o ambiente da Praça de Toiros da Ilha Terceira, sempre briosa e exemplarmente cuidada, que abriu portas a 15 de maio para um Festival organizado pelo Grupo de Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, em conjunto com a Quinta do Malhinha, quartel-general da família Pamplona.
Num lusco-fusco bastante aprazível, que fazia esquecer as noites de temperatura invernal recentemente sentidas na ilha, ao toque da trompete iniciou-se a liturgia, perante a presença de fiéis e apaixonados pelo Toiro Bravo, que preencheram generosamente as bancadas.
Abriu praça Tiago Pamplona, diante de um novilho da ganadaria de João Gaspar, exemplar nº 12, que não comprometeu as aspirações do cavaleiro, mantendo-se perseguidor do início ao fim, sem virar a cara à luta e revelando um comportamento positivo. Tiago Pamplona encontrou o sítio ao oponente, mostrou labor e montadas bem preparadas. Destaque para o segundo ferro curto, colocado com critério, finalizando a lide sem complicações, ao parar o novilho nos médios para cravar um ferro de palmo.
O segundo da ordem saiu à arena com a mesma divisa daquele que teve honras de abertura, revelando um comportamento semelhante ao primeiro, sem dificuldades em sair ao cavalo de João Pamplona, que poderá ter acusado algum nervosismo próprio de início de temporada. O cavaleiro deu vantagens ao novilho, que tinha andamento, cravando um belo primeiro curto. Contudo, o ginete da Quinta do Malhinha não conseguiu construir uma lide que deixasse perfume.
Montados os burladeros, brindou ao público Vicente Sanchez.
O novilheiro mostrou preparação, mas não teve a estreia sonhada nesta arena. O jovem, aluno da Escola de Toureio de Vila Franca de Xira, recebeu o flavo da Casa Agrícola José Albino Fernandes com uma larga cambiada de joelhos, variando depois nas sortes de capote. Com a muleta, rubricou a faena sobretudo pela mão direita, nos médios, diante de um novilho que tendia a ficar curto, em tandas às quais faltou maior fluidez e entrega. Referência para os bandarilheiros locais: Fábio Godinho, na gíria popular “Magalhães”, que começa a trilhar o seu caminho nesta arte, trazendo dos festejos populares competência para a praça; e Filipe Coelho, que neste espetáculo realizou prova e passou com distinção, sem comprometer, deixando um bom primeiro par de bandarilhas ao Albino.
Para a segunda parte do festival, no que diz respeito às lides a cavalo, estavam reservadas as reses da ganadaria de Ezequiel Rodrigues. De pelagem salgada, o quarto da ordem tendia a adiantar-se e levantava a cabeça no capote e nas reuniões com as montadas de Tiago Pamplona. O cavaleiro andou certeiro na ferragem comprida, mas mais desconectado nos curtos, muito por culpa do novilho da casa de bravo, que conta com meio século de história e não se mostrou colaborante, resultando numa lide breve e com pouca história.
Para a segunda lide de João Pamplona saiu um novilho da divisa verde e branca, com o número 470 no costado, bragado e com mais cara, ainda que desproporcional ao restante corpo. O cavaleiro evidenciou desenvoltura e maior segurança nas reuniões e na colocação do hastado, que tinha andamento. Destaque para o terceiro ferro curto, em que parou o novilho nos médios e cravou “en su sitio”, numa reunião ajustada e de mérito. Notoriamente saiu por cima, escutou música e teve melhor fortuna que o irmão na segunda parte da contenda.
O espada Vicente Sanchez augurava, certamente, melhor sorte e mais salero na sua segunda atuação. Dos curros saiu o novilho mais pesado do espetáculo, pertencente à ganadaria de Rego Botelho. O que tinha de apresentação faltou-lhe em bravura, tornando inglório o esforço do novilheiro frente ao negro que viajou da Caldeira Guilherme Moniz, e que rachou a partir da terceira série, saindo solto. Nas bandarilhas, João Pedro Silva “Açoriano” voltou a deixar o seu selo de qualidade, como figura que é, repartindo a labuta com Fábio “Magalhães”.
Nas pegas atuaram em solitário os anfitriões da noite. Depois da recente deslocação a Portugal Continental, onde deixaram boa imagem na praça de Beja, os forcados da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, capitaneados por Bernardo Belerique, voltaram a demonstrar coesão e boa preparação. Tomás Costa, Francisco Ramos e Edson Monteiro foram caras e resolveram ao primeiro intento. Vasco Sousa, frente ao quarto da ordem, concretizou a pega à segunda tentativa.
Abrilhantou o evento a Filarmónica da Sociedade Musical e Recreio da Terra Chã, emprestando sonoridade e emoção a cada momento da corrida. Foi Diretor de Corrida Leandro Pires, assessorado pelo médico veterinário Dr. José Paulo Lima, num espetáculo que decorreu a ritmo assinalável e sem incidentes.
Texto por: André Cunha
Fotografia por: J. Edgar Vieira.
Foi esta estreia do novo membro da Quadrilha Bien, André Cunha e também a estreia pela Quadrilha Bien do Maestro da fotografia taurina açoriana J. Edgar Vieira.
Muito obrigado a ambos e benvindos ao Bien.






