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O toiro do Leme

A época estival abre, na Ilha Terceira, a porta à diversão e, seja no mar ou nas ruas, as festas de verão encarregam-se de pôr a gente bem disposta, comunicativa e pronta para um pé de dança ou dois dedos de conversa.
O toiro nas ruas é disso exemplo: o povo exulta, junta-se para o ver passar num gesto de comunhão, quase quinhentista, que teima em marcar as sucessivas gerações de terceirenses. As touradas em corda em portos e baías são algo, digamos, recente: remontam à década de 30 do século passado. Foram alvo de alguma polémica pelos taurinos que viram o seu dealbar, mas hoje, já em pleno primeiro quarto do século XXI, são uma das expressões onde mais gente se aglomera para ver o toiro correr, consumir comes e bebes e distrair-se por uns instantes.
A Vila de S. Mateus, como localidade piscatória charneira da Ilha Terceira, vive, na segunda semana de agosto, um esplendor enorme, só comparável ao esplendor das festividades camarárias de Angra do Heroísmo e Praia da Vitória. Os pescadores esmeram-se com fervor, respaldados pela vontade e resiliência deste povo férreo, e juntam no Porto de S. Mateus meia ilha, com a outra meia a lamentar-se por não ter ido. Fazem concertos, bodos de leite, bezerradas e touradas. Essas touradas levam milhares às orlas do Atlântico, numa dimensão que só vendo se consegue perceber.
As duas touradas, uma noturna e a de encerramento também noturna, arrastam muita gente, acontecem com muito entusiasmo, como se a ruralidade e a pesca se encontrassem num só, onde o toiro é o elemento primordial de ligação a duas realidades distintas. Os fatos de mergulho mesclam-se com os trajes domingueiros num quadro típico que ainda hoje se mantém verdadeiramente atual e intenso.
No sábado 15 e no domingo 16, este agosto teve a força das grandes noites e tardes taurinas da Ilha Terceira. No dia 15, a noturna primou pela avassaladora enchente, com a excelente apresentação dos toiros da ganadaria Olé Toiro Terceira a deixarem um rasto de seriedade no porto e nas imediações do mesmo, na freguesia de S. Mateus. Já no dia seguinte, os toiros foram de Francisco Pereira e causaram muita diversão aos que os desafiaram junto ao mar.
Para quem a tauromaquia não lhe diga nada, um dia, vá à tourada ao Porto de S. Mateus, na Ilha Terceira, e veja a força que a festa de toiros ainda continua a ter numa das vilas mais populosas da ilha.

Texto por : José Paulo Lima
Fotografia por: Orlanda Gomes

 

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