A 24 de junho voltou a confirmar-se aquilo que já se tornou tradição: a praça enche-se não apenas de gente, mas de expectativa. Na Corrida de São João, integrada nas Sanjoaninas, não se assiste apenas a um espetáculo — participa-se num ritual coletivo onde emoção, risco e cultura se entrelaçam de forma única.
Com um cartel equilibrado entre o toureio a cavalo e a atuação a pé, a tarde prometia diversidade, e assim foi. João Moura Jr. e João Ribeiro Telles trouxeram a mestria do toureio equestre, enquanto Fernando Adrián apresentou uma abordagem mais direta e próxima, perante toiros de João Gaspar e Rego Botelho que contribuíram para uma corrida exigente e de leitura constante.
João Moura Jr. entrou em praça com entrega evidente, numa atuação que foi crescendo ao longo da sua participação. Se inicialmente surgiram momentos algo irregulares, depressa conseguiu ajustar-se, sobretudo no segundo toiro, onde demonstrou maturidade e capacidade de adaptação, transformando as dificuldades em argumentos a seu favor.
Também João Ribeiro Telles confirmou a sua consistência. A sua primeira lide pediu contenção e inteligência, obrigando-o a respeitar os tempos do toiro. No entanto, seria na segunda intervenção que verdadeiramente se destacou, ao conseguir construir uma atuação de maior brilho, onde a elegância e o risco caminharam lado a lado, num registo de grande qualidade técnica. Benificiou do voluntarioroso e codicioso, Lancero de Rego Botelho que permitiu uma lide séria e com muito temple.
Fernando Adrián acrescentou intensidade à tarde. Com um estilo mais próximo e emocional, procurou a ligação com o público desde o primeiro momento. No seu primeiro toiro conseguiu desenhar uma lide de mérito, apesar de interrompida por uma colhida aparatosa que não o afastou em definitivo. Pelo contrário, regressou com garra, retomando o confronto com coragem. Já no último, enfrentou maiores dificuldades, não conseguindo repetir o mesmo nível, embora mantendo dignidade na sua prestação.
Mas foi nas pegas que a tarde ganhou contornos de maior dureza. Os forcados enfrentaram toiros exigentes, protagonizando momentos de grande risco e sacrifício. Houve eficácia, mas também episódios complicados, com colhidas e substituições que evidenciaram a imprevisibilidade da arena. Ainda assim, prevaleceu o espírito de entreajuda, com dobragens decisivas e um forte sentido de grupo a marcar presença nos momentos mais críticos.
Se o toureio ofereceu momentos de arte, foi nas pegas que a emoção atingiu expressão mais crua. A tarde foi marcada por momentos de extrema dureza. Tomás Cunha (TTT) e o cabo Rui Dinis (Ramo Grande) abriram as respetivas prestações com pegas competentes à primeira tentativa. Contudo, o destino reservava provações maiores. Francisco Matos (TTT) viveu o momento mais dramático da tarde, sofrendo uma violenta e arrepiante colhida perante um duríssimo Rego Botelho; foi dobrado com enorme mérito e coragem por Eduardo Rico, que resolveu a situação a sesgo. Destino semelhante teve Luís Valadão (Ramo Grande), que, após várias “voltaretas” e uma lesão, foi substituído por Gonçalo Batista, que consumou a pega também a sesgo com grande valentia. A alma do forcado, feita de peito aberto e espírito de sacrifício, foi aqui exaltada na sua forma mais pura
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Destacaram-se, pela eficácia, as intervenções resolvidas com prontidão e sentido de grupo, incluindo dobragens que salvaram situações complicadas. Mas mais do que resultados individuais, ficou a imagem de coragem coletiva, onde cada investida foi recebida com frontalidade e espírito de entrega. Entre quedas e levantamentos, foi ali que se viu, de forma mais nítida, a essência da festa: compromisso, disciplina e solidariedade.
Mais do que a soma das atuações, ficou a sensação de autenticidade. Houve falhas, houve esforço, houve superação — elementos que, em conjunto, construíram uma tarde genuína, distante de facilidades e rica em verdade.
No final, quando a arena se esvazia, fica sempre mais do que aquilo que foi visto. Fica o que se sentiu. Angra renova, assim, a sua ligação profunda a esta tradição, mostrando que a tauromaquia continua a ser, acima de tudo, uma experiência vivida em comunidade.
Nem sempre são as tardes perfeitas que permanecem. Por vezes, são aquelas onde se sente mais — e esta foi, sem dúvida, uma delas.
Texto por José Paulo Lima
Fotografia por Paulo Pires






