O solstício de Verão chegou embalado pelas Sanjoaninas e encontrou a Praça de Toiros da Ilha Terceira vestida de gala, para mais uma Feira de São João.
Bancada esgotada, ao espelho do que aconteceu no ano transato, ótimo ambiente e aquele burburinho inconfundível que antecede as grandes ocasiões. A tarde amena, sob um sol discreto, enquanto o orvalho ameaçava fazer das suas à medida que a noite se aproximava.
Antes das cortesias, o silêncio impôs-se para homenagear três figuras recentemente desaparecidas e ligadas à Festa: José Alpoim Bruges, António Vielmino Ventura e António Diniz.
O início da corrida sofreu algum atraso, justificado pelas meritórias e simbólicas homenagens a Tiago Pamplona, que assinala esta temporada vinte anos de alternativa, e ao Grupo de Forcados Amadores de Turlock, que celebra cinquenta anos de história e dedicação, enquanto embaixadores da tauromaquia portuguesa além-Atlântico.
Abriu praça Tiago Pamplona diante do n.º 74 da ganadaria Rego Botelho. O exemplar revelou-se distraído e reservado de mobilidade, exigindo paciência por parte do cavaleiro terceirense. Um toque na montada, consentido no segundo curto, sem consequências e em consequência da forte mangada do oponente na reunião, ilustrou bem as dificuldades colocadas pelo hastado. Ainda assim, Pamplona foi encontrando melhores terrenos e entendendo a investida do seu adversário. Não foi a atuação sonhada para quem teve honras de abertura da feira taurina, não conseguindo acender o rastilho da afición presente, mas houve entrega de quem sabe o ofício.
Pelos Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense pegou Carlos Vieira, consumando a sorte ao primeiro intento. Exímio na cara do animal, contou com a coesão do grupo, rubricando uma despedida das arenas à altura. Acompanhado pelos seus irmãos de jaqueta, ouviu a ovação das bancadas, acompanhada pela estreia do pasodoble dedicado a Tiago Pamplona. Se a primeira atuação da tarde decorreu em tom mais contido, a segunda fez aumentar a temperatura.
João Moura Jr. voltou a demonstrar a razão pela qual mantém uma ligação tão especial com a afición terceirense. Sem meias medidas, montado no Neco e aguentando a chegada do oponente, um toiro de pelagem preta da ganadaria de João Gaspar, e com andamento, agarrou o público logo no primeiro ferro curto, dando vantagens ao “Glorioso” que investia e esbanjava nobreza. Finalizou as sortes com bregas ao seu estilo, e já com o cavalo Qualtivo, forma um binómio perfeito e crava dois curtos junto à porta dos curros, deixando a praça a fervilhar.
A fasquia havia ficado alta para os colegas de cartel. Pelos Amadores de Turlock, capitaneados por George Martins, pegou Sergio Tirado à segunda tentativa, resolvendo com determinação e à córnea perante um exemplar que investiu com a entrega de uma verdadeira tourinha.
João Ribeiro Telles recebeu o terceiro da ordem à porta dos curros. O exemplar baixote de Rego Botelho não escondia limitações de locomoção, mas conservava alma forjada de bravura e vontade de investir. O Ginja, como é carinhosamente tratado, mostrou mão segura nos compridos e, nos curtos, foi a cima do toiro, deixando ferros de boa nota, com batidas ao piton contrário, deixando ferros meritórios e valorizando igualmente as extraordinárias aptidões do Gran Duque, cavalo de confiança. Houve mando, entrega e aproveitamento das condições de um oponente codicioso e bastante mais colaborante do que o primeiro exemplar da tarde. Na cara do toiro, que pedia contas, esteve o cabo da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, Bernardo Belerique, consumando uma pega limpa e vistosa ao primeiro intento.
Para quebrar a monotonia do intervalo, eis que salta à arena um espontâneo de palmo e meio, e de capote em punho, com um à-vontade tão inocente quanto a idade, desenha lances imaginários e capazes de pôr a assistência a gritar olés.
O quarto da corrida, o mais pesado do curro (539 kg), mesmo que tímidos, mereceu aplausos ainda antes da lide pela imponência da sua apresentação e trapío.
Pertencia à ganadaria de João Gaspar e proporcionou a Tiago Pamplona uma oportunidade diferente da que encontrara no seu primeiro compromisso. Com maior serenidade e confiança, o cavaleiro desenhou uma atuação de crescente impacto. Os ferros sucederam-se com acerto, sem fantasia, mas com assertividade, desenrolou uma lide de encher olho e que chegou rotundamente às bancadas.
A música soou após o segundo curto e a assistência correspondeu ao labor do artista. O cavaleiro da Quinta do Malhinha deixou ferros na cruz, reunindo e rematando como mandam os cânones, ao nº 44 da divisa verde e preta, ganadaria que tem mantido uma regularidade assinalável no comportamento dos seus animais. O ferro de palmo colocado para encerrar a atuação serviu como remate de uma exibição que confirmou aquilo que muitos já sabiam: Tiago Pamplona tem recursos e categoria para ombrear com qualquer nome do panorama taurino nacional. Numa tarde carregada de significado pessoal, respondeu da melhor forma dentro da arena. Podemos contar com ele!
Saltaram a trincheira os Forcados Amadores de Turlock, para Joseph Pereira se fechar à segunda tentativa, num toiro que tinha cara e respeitável presença.
Chegou então o quinto da ordem e com ele confirmou-se o velho ditado: “No hay quinto malo”. O n.º 61 de Rego Botelho revelou-se um parceiro ideal, um casamento perfeito para João Moura Jr., proporcionando uma das passagens mais vibrantes da corrida. Se nos compridos a mão foi mais tremula, a ferragem curta atingiu níveis elevados. Particular destaque para a cravagem do segundo e terceiro curtos nos médios, este último antecedido por uma batida desconcertante na cara do toiro, que arrancou forte reação das bancadas. O cavaleiro voltou a conquistar a assistência, e caiu na graça da afición que esgotou a praça, por mérito próprio, e com a estrelinha de ter pela frente mais um exemplar bravo e com teclas, que arrancava de todos os terrenos. Montado no Hostil, João Moura armou o taco com a sua imagem de marca, e completou a obra com duas mourinas.
O público respondeu com entusiasmo e ficou a certeza de que a história entre Moura e a Monumental da Ilha Terceira tem novos capítulos a breve trecho. A pega revelou-se mais complicada para os homens da Tertúlia. João Vieira, personificação de que os Homens não se medem aos palmos, enfrentou a exigência do RB e viu uma série de fortes derrotes impedirem a concretização da sorte. Acabaria por ser dobrado por Francisco Matos que, encurtando distâncias, resolveu a questão ao terceiro intento.
O derradeiro momento da corrida ficou marcado pela recolha aos curros do exemplar da ganadaria João Gaspar, sendo substituído por um sobrero de Rego Botelho, cornicurto e de pelagem flava. João Telles não teve missão facilitada, encontrou pela frente um toiro incómodo, que aguardava na saída para as reuniões e se adiantava ligeiramente aos terrenos pretendidos. Apesar de um segundo curto de boa nota, nunca conseguiu assumir pleno domínio da contenda. Ficou patente a qualidade do cavaleiro da Torrinha e a sua procura de soluções, mas nesta tarde/noite a sorte não caminhou a seu lado. Também na pega surgiram dificuldades. Aaron Teixeira sofreu na pele, e por duas vezes foi expulso da cara do toiro com violentos derrotes, acabando por ser dobrado por David Sanchez que, a sesgo, consumou a sorte à terceira tentativa.
Dirigiu a corrida Ricardo Costa, assessorado pelo veterinário Dr. Vielmino Ventura.
No término, ecoaram os acordes de “A Portuguesa”, pela Banda do Senhor Santo Cristo Of Toronto, que abrilhantou o espetáculo, provando ser mais uma ligação viva entre os Açores e as suas comunidades espalhadas pelo mundo.
Resta parabenizar a organização, que se reinventa ano após ano para manter o nível certame, e todos os aficionados presentes, que certamente não ficaram indiferentes por terem esgotado uma vez mais a Monumental da Terceira, numa ilha que continua a viver a tauromaquia com paixão singular e como algo intrínseco.
Texto por André Cunha
Fotografia por Paulo Pires






