Por estes dias, a Praça de Toiros da Ilha Terceira transforma-se em catedral do toureio.
Ao final da tarde do dia 22 de junho, recebeu o segundo evento da Feira de São João, uma corrida mista com pontos de interesse suficientes para ter cativado três quartos fortes de casa, moldura humana que coloriu e foi alavanca para o sucesso do espetáculo.
Iniciou a contenda um exemplar da Casa Agrícola José Albino Fernandes, nº 256, destinado a João Moura Jr. O cavaleiro cumpriu nos compridos, e cedo demonstrou entendimento com o hastado. Num segundo curto deixou o toiro de frente à crença natural e cravou em bom plano, rematando com brega vistosa e recorte junto às tábuas. Bem montado, protagonizou uma lide agradável, pautada por ladeios emotivos perante um exemplar de pelagem salgada, que sem deslumbrar, soube cumprir o seu papel. Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, grupo que entrava novamente na corrida, aliás, farão o pleno, tal como o cavaleiro de Monforte. João Bettencourt brindou ao Presidente do Governo Regional dos Açores e consumou a pega à segunda tentativa.
O segundo da ordem, da ganadaria de João Gaspar, com 510 Kg, coube em sorte a João Pamplona. O cavaleiro da casa recebeu-o sozinho na arena, deixando um ferro comprido de boa nota, a uma estampa de toiro. Escolheu criteriosamente os terrenos, mostrou-se soltinho e confiante, perante um adversário que rematava e perseguia a montada após cada reunião. A emoção foi crescendo nas bancadas, que cedo se renderam ao labor do cavaleiro terceirense. Terminou a faena com um palmo, também ele cravado no alto, encerrando uma atuação de grande entrega. O toiro de nome Visionário teve um comportamento assinalável, e apesar de ser o mais pesado da corrida, tinha mobilidade, e contribuiu para o êxito da lide. Pelos Forcados Amadores de Turlock, que também repetiam cartel, Fábio Vieira resolveu à primeira tentativa, aguentando com firmeza a investida do toiro e rubricando uma pega segura.
Se alguém ainda tinha dúvidas sobre a dimensão de Marco Pérez, rapidamente as dissipou. O jovem matador de Salamanca, sensação (até mesmo viral) desde os seus primeiros passos com a muleta, apresentou-se disposto a conquistar o público terceirense. Diante de um toiro de José Albino Fernandes, recebeu-o com verónicas de bom recorte, rematadas por uma vistosa revolera. Já nos médios, tentou variar na sorte de capote, mas o exemplar bisco de JAF tinha forças contadas e escasso recorrido. Iniciou a faena de muleta de joelhos, junto às tábuas, alternou entre naturais e derechazos de expressão, que entusiasmaram os presentes. Contudo, o toiro foi quebrando o ritmo, procurando refúgio nas tábuas durante a quarta tanda. Ainda assim, deixou patente a sua entrega, espremendo a monotonia que havia dentro do oponente.
O segundo do lote de Moura, pertencente a João Gaspar, e já após ter sido lidado, acabaria devolvido aos currais, depois de revelar evidentes limitações. A solução passou pela saída do sobrero, mas antes haveria ainda tempo para um dos momentos da noite.
Da porta dos curros surgiu o nº 278 da Casa Agrícola José Albino Fernandes para João Pamplona. O cavaleiro do Posto Santo voltou a exibir-se em grande plano, construindo uma lide em crescendo, delineada com retidão e mão certeira. O “Luceno” foi o parceiro ideal, investindo com bravura e alegria, oferecendo as condições que todos os artistas desejam encontrar. Um pequeno percalço em terrenos apertados, aquando da preparação para o segundo ferro curto, não abalou o foco do cavaleiro, que inspirado passou a papel químico o que havia feito na sua primeira lide. Encerrou com um ferro de palmo no centro da arena, perante um público rendido. As bancadas levantaram-se em uníssono para ovacionar e reconhecer uma tarde/noite memorável para este João (premiado com duas voltas ao “ruedo”). Não é de Navarra, mas este Pamplona soube fazer a Festa! Tomás Costa, jovem valor dos forcados da TTT, resolveu a pega à terceira tentativa, numa sorte carregada e executada na cara do toiro que tinha gás.
Depois da sonante lide anterior, João Moura Jr. apostou as fichas e recebeu também ele o sobrero numa sorte gaiola. O exemplar da ganadaria de João Gaspar, acusou 415 quilos na balança, e arrancava com pata, mas as sortes nem sempre transmitiram a emoção desejada. Montado no Jet-Set, o cavaleiro iniciou os curtos apostando na mesma fórmula, embora com reuniões mais abertas. Mudou de cavalo, lá vinha o Hostil. Tentou imprimir maior emoção, e adivinhavam-se mourinas que, porém, não alcançaram o efeito esperado, perante um toiro que foi perdendo entrega e se deixava ficar. Com o oponente a vir a menos, e já com nova troca de montada (que é vasta e com elevada qualidade), João Moura fechou a atuação com dois ferros de palmo nos médios, zona onde o toiro demonstrava estranha crença. Bryce Rocha, dos Forcados Amadores de Turlock, consumou a pega à segunda tentativa, com determinação.
Para encerrar a corrida, regressou a figura de Marco Pérez, diante de um bonito flavo e olho de perdiz da casa de bravo de José Albino Fernandes, com o nº 310 no costado. Recebeu-o com uma larga cambiada de joelhos, mas logo o toiro evidenciava que poderia ter alguma falta de força. O tércio de bandarilhas a este sexto da ordem foi bem mais luzidio, sendo chamado para a labuta o terceirense Diogo Coelho. O salmantino chamou à arena o maestro Vítor Mendes para lhe brindar a faena, que iniciou de pés juntos, com a flanela “ayudado por alto”. O toiro metia bem a cara sem brusquidão, ainda que com um recorrido lento e medido. O jovem matador entendeu perfeitamente o que tinha em mãos, respeitando-lhe os tempos e explorando-lhe as virtudes. Toureou com classe, serenidade e uma quietude quase oriental. A quarta série, ao natural, foi desenhada com enorme cadência, para depois ligar muletazos profundos e um toureio em redondo que conquistou definitivamente a assistência. O público rendeu-se por completo ao desplante e à ousadia de Marco Pérez. Demonstrou ser matéria-prima rara: fino azeite. Houve momentos de compromisso, a recrearse a escassos milímetros dos pitons que lhe roçavam o quadril, perante um toiro que foi gerido com pinças e muita sensibilidade. Estrondosa ovação e duas voltas à arena que coroaram a sua atuação, levando na bagagem o carinho e a admiração da afición insular.
Da corrida foi delegado técnico Leandro Pires, coadjuvado pelo médico veterinário Dr. José Paulo Lima.
No regresso às Sanjoaninas, a Sociedade Filarmónica Recreio Serretense abrilhantou o espetáculo, confirmando a sua excelência na interpretação dos pasodobles. O público saiu, levando consigo a certeza de ter assistido a uma daquelas noites com lides que têm espaço para perdurar na memória.
Ficou confirmada, uma vez mais, a vitalidade e exigência da tauromaquia terceirense, numa praça que muitas vezes é madrasta para os seus conterrâneos, mas que nesta edição da Feira de São João 2026, abriu-lhes os braços para um doce sonho de triunfo.
Texto por: André Cunha
Fotografia por: Paulo Pires






